Ele tinha esse hábito de tomar muito café.
Começara com isso no tempo de cursinho, tempo de vestibular. Naquela correria louca que faz a gente perceber desde cedo que nosso corpo precisa de muito além daquilo que mata a fome e a sede.
E perceberia mais tarde, também, que esse negócio que os ingleses chamam de "my body" quando olham pro espelho nem é tão engenhoso assim. O seu, por exemplo, não era mais do que cinqüenta e alguns quilos de um bocado de coisa que o faziam interpretar mal o papel de peso no mundo.
Mas ele gostava muito de café.
Talvez não fosse errado dizer que ele precisava mais do que gostava, mas essa história é sobre a vontade - e aqui cabe pensar um pouco sobre a linha tênue que separa anseio de necessidade; que distingue o “eu quero” do “eu preciso”. Hábito e vício.
Pediu a terceira xícara de expresso.
Era numa livraria. Encontrava-se sentado em uma cadeira bonitinha e desconfortável; com os cotovelos apoiados sobre uma pequena mesa redonda para dois.
Parecia estar triste. Ser triste. (os ingleses sabem a diferença entre ser e estar?)
Olhava para todas as pessoas que passavam por ali como quem olha para as pessoas que passam com vontade chamá-las para sentar e tomar um cafezinho...
Olhava para a sua sobremesa favorita à sua frente – um generoso pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate- e não via nada além de um amontoado bonito de nutrientes.
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